terça-feira, 15 de setembro de 2009

Contra os preconceitos

Lendo um pouco pra ter informações sobre o assunto que trataremos no programa da disciplina de Tele III cheguei a esse texto do Fabrício Carpinejar. Compartilho com vocês:

Pode me chamar de gay, não me ofendo. Pode me chamar de gay, é um elogio. Pode me chamar de gay, apesar de ser heterossexual, não me importo de ser confundido. Ser gay me favorece, me amplia, me liberta dos condicionamentos. Não é um julgamento, é uma referência. Pode me chamar de gay, não me sinto constrangido. Pode me chamar de gay, está dizendo que sou inteligente. Está dizendo que converso com ênfase. Está dizendo que sou sensível. Pode me chamar de gay. Está dizendo que me preocupo com os detalhes. Está dizendo que dou água para as samambaias. Está dizendo que me preocupo com a vaidade. Está dizendo que me preocupo com a verdade. Pode me chamar de gay. Está dizendo que guardo segredo. Está dizendo que me importo com as palavras que não foram ditas. Está dizendo que tenho senso de humor. Está dizendo que sou carente pelo futuro. Está dizendo que sei escolher roupas. Pode me chamar de gay. Está dizendo que cuido do corpo, afino as cordas dos traços. Está dizendo que falo sobre sexo sem vergonha. Está dizendo que danço levantando os braços. Pode me chamar de gay. Está dizendo que choro sem o consolo dos lenços. Está dizendo que meus pesadelos passaram na infância. Está dizendo que dobro toalha de mesa como se fosse um pijama de seda. Pode me chamar de gay. Está dizendo que sou aberto e me livrei dos preconceitos. Está dizendo que posso andar de mãos dadas com os anéis. Está dizendo que assisto a um filme para me organizar no escuro. Pode me chamar de gay. Está dizendo que reinventei minha sexualidade, reinventei meus princípios, reinventei meu rosto de noite. Pode me chamar de gay. Está dizendo que não morri no ventre, na cor da íris, no castanho dos cílios. Pode me chamar de gay. Está dizendo que sou o melhor amigo da mulher, que aceno ao máximo no aeroporto, que chamo o táxi com grito. Pode me chamar de gay. Está dizendo que me importo com o sofrimento do outro, com a rejeição, com o medo do isolamento. Está dizendo que não tolero a omissão, a inveja, o rancor. Pode me chamar de gay. Está dizendo que vou esperar sua primeira garfada antes de comer. Está dizendo que não palito os dentes. Está dizendo que desabafo os sentimentos diante de um copo de vinho. Pode me chamar de gay. Está dizendo que sou generoso com as perdas, que não economizo elogios, que coleciono sapatos. Pode me chamar de gay. Está dizendo que sou educado, que sou espontâneo, que estou vivo para não me reprimir na hora de escrever. Pode me chamar de gay. Que seja bem alto. A fragilidade do vidro nasce da força e do ímpeto do fogo.

4 comentários:

Elisandra Borba disse...

Confesso que também pensava que ele era gay, até saber por fontes seguras que não.
Mas o texto é perfeito. Lindo. Adorei.
Se mais homens no mundo fossem gays, certamente não teríamos tantar barbáries.

Edinho Lumertz disse...

Eu não ia comentar porque o Fabrício e eu temos algo que nos repele. Eu não suporto ver a cara dele, ouvir a voz dele, ou saber das idéias dele. Se ele me conhecer vai sentir o mesmo de mim. Agora que a Elis já comentou, primeiro a parte engraçada, já está ruim para as mulheres da forma que está, então vamos desejar que o mundo tenha mais homens gays?(É só uma piadinha). Esse texto apresenta duas interpretações. A primeira é a que está na cara: um chute bem dado no órgão sexual masculino daqueles que se dizem "machões". A resposta definitiva de uma pessoa com orientação sexual homossexual que não se ofende com a palavra gay porque ela não significa uma coisa ruim. O outro lado é a réplica do preconceito. Não fica claro até o final do texto, mas aos poucos vê-se que o homem gay do texto se percebe superior aos héteros, não considera a possibilidade de um hétero ser sensível, inteligente, gentil, que curti ter sapatos diferentes, que dobra com cuidado qualquer peça de roupa, que é o melhor amigo de alguma mulher, e mais, desconsidera as mulheres que são iguais em comportamento e desconsidera as "Bichas pobres"(ontem ainda vi uma), aquele tipo de homem gay meio favelado, que anda com o cabelo sujo, que usa palito de dentes, que não troca de roupa por uma semana, que te olha já esperando que tu dê uma risadinha pra ter a chance de perder a compostura, a educação e criar um barraco. Concluindo, é um texto mais pra se defender, dar respostas aos colegas que o chamam de gay do que para defender os gays em si, e de lambuja levantou novas maneiras de se ter preconceito.

Beijos às Damas.

Edinho Lumertz disse...

Reparei que o blog está mais bonito. Os tags, horário da postagem, os nomes das Damas na coluna da direita, os blog's pessoais, os títulos da sessão "O Que Lemos", "O Que Já Escrevemos", tudo isso era de um tom cinza parecido com o da data, onde diz "Terça-Feira, 15 de Setembro de 2009. Agora estão num tom de vermelho. Bem mais bonito.

Natacha Kötz disse...

Aii, Andressa! Desculpa. Acabei postando e não vi que tu tinha postado. Foi mal.

Mas comentando, eu achei o texto bastante conveniente. Será que não era uma boa idéia colocar um trechinho entre aspas no final do programa, antes dos créditos finais?

Gosto do que o Fabrício escreve, mas fiquei meio insegura de ler os textos dele, e vocês sabem o porquê.

Ele me irrita às vezes. Aliás, me irrita profundamente.

Beijos